Oração

Oração, janela e circunstâncias

Porque Daniel orava na janela de sua casa? Séculos mais tarde Jesus condenaria a atitude dos fariseus de orarem em público, para serem vistos.

Foto por Teo Scoparo

A história de Daniel na cova dos leões é uma daquelas que encanta desde as crianças até os mais experientes. A trama, o suspense e, por fim, o triunfo do bem sobre o mal nos faz gostar dessa narrativa. No entanto, algumas perguntas por muito tempo me incomodaram. Porque Daniel orava na janela de sua casa? Séculos mais tarde Jesus condenaria a atitude dos fariseus de orarem em público, para serem vistos; será que Daniel já não deveria ter alguma noção de que essa exposição toda não era legal? Além disso, quando a ordem do rei para que ninguém por trinta dias orasse a ninguém mais além dele foi sancionada, por que Daniel voltou a orar no mesmo lugar de costume? Se ele continuasse orando ao Deus do céu, mas agora em secreto, apenas pelos trinta dias determinados, estaria pecando? Sem mais delongas, analisemos o texto do livro de Daniel em busca de respostas. Arrazoemos. 

O capítulo 5 de Daniel termina com a tomada de Jerusalém por Dario e, logo na sequência, vemos a história em questão, no capítulo 6. Neste capítulo vemos, já no começo, o estabelecimento do governo de Dario através de sátrapas e presidentes, logo depois tem lugar o episódio em questão. Isso me sugere que a os acontecimentos da cova dos leões não foram muito tempo depois da ascensão de Dario. E no que isto nos ajuda? Há outro capítulo de Daniel que conta algo desse mesmo período: Daniel 9 

Em Dn 9:1-2 diz que no primeiro ano do rei medo, Daniel, através do estudo do livro de Jeremias, percebeu que o exílio duraria 70 anos. De fato, em Jeremias 25:11, o profeta demarca esse tempo e o reforça em 29:10. Contudo, este último texto é uma carta aos exilados, na qual é dito que ao fim destes setenta anos Deus atentaria para o povo, e eles deviam invocar e buscar a Deus. Neste contexto vem o conhecido verso de Jeremias 29:13: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração”. Isso era o que o povo de Deus deveria fazer. 

Dessa forma entendemos a relação de causa e efeito entre os versos 2 e 3 de Daniel 9; ele entende o momento profético em que está vivendo e responde conforme o que Deus mandou ser feito. Assim temos uma possível resposta para nossa primeira pergunta formulada: Daniel orava na janela, em um lugar visível, porque, possivelmente, essa não era uma oração “comum”, mas sim uma oração em prol de seu povo, uma oração que respondia a um imperativo divino e, além disso, o fato da oração ser feita na janela era um ato para inspirar seus compatriotas a fazerem o mesmo e cumprirem a profecia.  

Ademais, se a conexão entre os capítulos 6 e 9 de Daniel é válida, podemos entender que a trama dos sátrapas contra Daniel tem desdobramentos mais profundos do que uma “simples” inveja por cargo e honras humanas. O sentimento desses homens seria somente o pretexto usado pelo próprio satanás para que, de alguma forma, o povo de Deus ficasse impedido de cumprir a parte que lhe correspondia naquele momento profético e, desta forma, o plano de Deus para Israel não se cumprisse ou, ao menos, fosse retardado. Parece que mais uma vez temos uma mostra do grande conflito aqui.  

Isso me responde porque Daniel não exitou em momento algum em continuar suas orações normalmente, exatamente da mesma forma. Não era uma questão de ser pecado ou não orar em particular, mas sim uma cena de encorajamento na qual, como referência espiritual de seu povo, ele os mostrasse que mesmo em frente a uma lei contrária à vontade de Deus para aquele momento, eles deveriam continuar cumprindo destemidamente sua parte dento do plano profético.  

É exatamente aqui que tiro uma lição dessa história para minha vida. Não foi apenas naquela situação em que satanás trabalhou para atrapalhar, e até mesmo impedir, o povo de Deus de viver à altura que momento requeria. E isso nem sempre vem na forma de uma lei explícita como no caso de Daniel, mas também de formas mais sutis, conquanto eficientes. Quantas pessoas que você conhece não conseguem cuidar direito de sua saúde (descanso e alimentação adequados, exercícios físicos regulares e etc) por conta de uma rotina de trabalho que não dá brecha para tais cuidados? E quantos não tem seus sábados roubados pelo cansaço excessivo por conta desta mesma rotina que precisam levar para manter a subsistência sua e de sua família? E, falando em sábado, quantos têm o culto familiar de pôr do sol tomado de si devido ao trânsito de uma grande cidade? Quantos estudantes perdem saúde e espiritualidade pela necessidade de dar conta de requisitos exigidos para suas carreiras? Enfim, a lista vai até onde queiramos ir. Sem a intenção de ser sensacionalista, mas conhecendo o risco de ser exagerado, muitas vezes parece que o mundo, em muitos detalhes, está montado num sistema projetado para dificultar e, se possível, até mesmo impedir os filhos de Deus de viverem à altura de seu chamado. 

Não quero aqui dizer que tais pessoas estão necessariamente em pecado, nem chamá-las de fracas por não passarem por cima disso tudo. Também não quero dizer que devemos largar tudo e irmos para o campo. O que desejo através da reflexão da história de Daniel é que devemos estar sempre atentos ao momento profético em que vivemos, bem como dos tantos obstáculos – grandes ou pequenos, pontuais ou sistêmicos – que são colocados para nos tirar o foco daquilo que é muito maior do que essa vida que hoje vivemos. 

O que desejo é que cada um tenha não só a percepção mas também a intrepidez de Daniel de, quando tudo conspirava para o contrário, guardar a profecia e viver pelo “assim diz o Senhor”.  

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