Intimidade com Deus, Salvação

A Síndrome De Naamã – Parte 2

Talvez o mais difícil para Naamã não era o sacrifício, mas sim não ter controle sobre o resultado; é aí que, novamente, guardamos semelhança com ele.

Em um texto anterior conversamos sobre uma tendência observada no personagem Naamã que, de alguma forma, ainda pode ser vista em muitos de nós: a de achar que Deus só se manifesta em meio a rituais, misticismos e emoções; logo, o que acontece na ausência destes, não pode ter sido ação direta de Deus. No entanto, há ainda um outro detalhe na história que chama a atenção, pois reflete uma propensão do ser humano que interfere no relacionamento com Deus.

O texto de 2 Reis 5:11-12 mostra Naamã expondo toda sua indignação: primeiro ele reclama da desconsideração do profeta, seguindo pela falta de um ritual para a cura (elemento destacado no texto anterior), chegando, por fim, a reclamar até do rio que foi escolhido para o milagre. Porém toda sua atitude birrenta e insatisfeita é contrastada, no verso 13, com as palavras calmas de seus oficiais: “Meu pai, se te houvesse dito o profeta alguma coisa difícil, acaso não a farias?” Neste ponto imagino Naamã, ainda contrariado, mas sendo obrigado a admitir: é… faria. Então os oficiais concluem: “Quanto mais que apenas te disse:  lava-te e ficarás limpo”.

Por que tanta dificuldade em aceitar o simples? Imagino que se o profeta houvesse ordenado que o leproso subisse uma montanha, ficasse em jejum de 40 dias, sendo obrigado a passar noites inteiras ajoelhado no frio e outros tantos sacrifícios quantos você queira pensar também, ele provavelmente teria aceitado e sem muita reclamação. Então por que a resistência em simplesmente se lavar no rio Jordão? Talvez o mais difícil para Naamã não era o sacrifício, mas sim não ter controle sobre o resultado; é aí que, novamente, guardamos semelhança com ele.

Alguma vez você já foi atormentado com a pergunta: será que serei salvo? Quando a resposta a tal questão é negativa, muitas vezes vem seguida da explicação: eu não tenho feito isso, nem isso, nem aquilo. O problema maior de tal justificativa é que ela pressupõe o oposto dela: se eu estivesse fazendo isso, isso e mais aquilo, teria certeza da salvação. Eis o problema: temos dificuldade em confiar na nossa salvação porque ela não está centrada em algo que possamos fazer. Tal qual Naamã, preferíamos que Deus nos desse uma lista, longa e difícil como fosse, para que, ao final dela, pudéssemos ter a certeza da salvação. Mas não, Ele só mandou que nos lavássemos no sangue do Cordeiro, e estaríamos limpos, salvos. E isso, de tão simples, se torna difícil pois, como Naamã, queremos ter o processo e o resultado controlados por nós mesmos. Contudo, a essência da justificação pela fé é que você tira totalmente o controle de suas mãos para colocá-lo totalmente nas mãos de Deus.  

É justamente nesse ponto que muitos caem na armadilha de confiar na guarda dos mandamentos como um paliativo contra essa nossa ânsia por uma certeza mais “palpável” da nossa salvação. Obedecemos, algumas vezes, não por amor e gratidão pela salvação já recebida, mas para tentar mostrar para nós mesmos que podemos estar seguros de nossa posição diante de Deus. Mas em que base? Naquilo que nós fizemos, e não no que Deus fez. E ainda pode ficar pior quando, além dos mandamentos, nos impusemos uma série de disciplinas espirituais (inclusive algumas boas) para nos convencermos de que estamos salvos, para termos onde nos firmar e fugir da angústia da questão. No fundo, temos dificuldade – e, catastroficamente, às vezes também nos falta vontade – de sair do controle e ter fé nAquele que garantiu, por seus méritos, a salvação a todo que cresse; fé nAquele “que justifica o ímpio”. Como Naamã, queremos ter controle. Erro sutil, conquanto fatal!

Espero que eu e você estejamos dispostos a abrir mão do controle. Oro para que acatemos o sábio conselho dos anônimos oficiais: da mesma forma como teríamos boa vontade em aceitar se Deus pedisse algo difícil, aceitemos o simples. Ir, se lavar em sua graça e esperar nEle, pela fé, o milagre da nossa salvação.

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